novembro 28, 2011

O Brasil Kafkaniano

Antes de começar, vamos as explicações.  Quem foi Kafka? Escritor que nasceu em Praga e, entre outros, escreveu o excelente livro O Processo, onde conta a história de um certo Josef K., julgado e condenado por um crime que ele mesmo ignora.   Daí a expressão kafkaniano, usada para qualificar qualquer situação contrária ao bom senso. 

Pois bem, o nosso serviço de saúde pública gasta uma soma imensa em propaganda na TV, em horário nobre e nos principais canais abertos.  A saúde pública ali é de primeiro mundo. Tudo funciona. 

Ministério da Saúde lidera ranking de investimento em propaganda entre órgãos governamentais (cbn/globoradio/globo.com)



No Rio de Janeiro as UPAS e as Clínicas da Família são excelentes. As farmácias populares tem todos os remédios com até 90% de desconto. Acreditei.  Eu sou mesmo uma crédula, acredito até em duendes...

Então lá fui eu tentar marcar uma consulta num hospital municipal de referência em oftalmologia (Hospital da Piedade), já que o SUS é um SUSto só.

Cena:  - Sra, como faço para marcar uma consulta?
- Vá num posto de saúde, marque uma consulta com um oftalmologista para que ele a encaminhe para cá.  Com este encaminhamento, chegue beeemmmm cedo, porque na primeira consulta só damos 10 senhas.
- Mas....Sra, ir num oftalmologista para me encaminhar para outro oftalmologista?
- Sim, isto mesmo, a sra entendeu direitinho.

Entendi o que?  Se entendesse eu mesma solicitaria minha internação no manicômio mais próximo!

Imaginem euzinha, do alto dos meus saltos 15, chegando de madrugada num PAM, enfrentando uma fila enooorme para me consultar com um oftalmologista (se tiver, se comparecer, se me atender...), para pedir a ele me mandar para outro?

Não sabia se ria, se chorava ou se pegava um avião para Brasília para pedir pessoalmente ao sr. Alexandre Padilha - Ministro da saúde,  para gastar melhor meu dinheiro, pois contribuo com esta bagaça exatos 41 anos e não posso, não quero e não vou gastar dinheiro com plano de saúde particular se o público tem obrigação de me atender. Menos dinheiro para propaganda enganosa e mais para o povo!

Nossos serviços públicos são tão ruins que acostumamos a achar que somente a classe muito pobre tem e deve procurá-lo.  Temos que mudar esta mentalidade pessoal.

Façam as contas de todas as contribuições, taxas, impostos e sei lá mais o que os governos municipais, estaduais e federais levam de nossos bolsos e vejam como é caro. 

Teríamos que ter o mesmíssimo atendimento da sra. Dilma Roussef, sr. Lula da Silva e outros, que, claro, também contribuíram.  Mas quando adoentados tratam-se em clinicas e hospitais caros e ainda com nosso dinheiro.

Quero o mesmo atendimento, mas no SERVIÇO PÚBLICO.  Para isto PAGO MUITO CARO.


novembro 16, 2011

O preconceito e o Norueguês

Diz meu amigo Ali Kamel em seu excelente livro "Nós não somos racistas", que no Brasil não existe racismo e, sim, preconceito social.  Lendo o livro aceitei sua visão.  Mas passando final de semana na praia da Ferradura, em Búzios (balneário metido a chic do R. de Janeiro), fiquei em dúvidas sobre esta afirmativa.

Chamou-me atenção a quantidade de pessoas olhando em minha direção.  Ora, sou gordinha, baixinha e sessentona.  Por mais perfeita que estivesse, arrancaria, no máximo, olhares de alguns velhotes sapecas.

Mas não eram apenas os velhotes sapecas e nem eram para mim os olhares.  Que pena, quase acreditei-me linda!

Como toda mulher é curiosa e eu não sou exceção, segui os olhares e entendi o motivo de tantas risadinhas, comentários à meia boca, olhares de soslaio e algo mais.

Sentados atrás de mim um jovem casal da mãos dadas bebericando uns drinks.  Até aí, zero de curiosidade despertariam. 
Ela lindíssima, com porte de modelo internacional; ele com cara de namorado apaixonado.

Mas em sendo em Búzios e não havendo nenhum papparazzi por perto, uma olhadinha só seria suficiente não é mesmo?

Seria.  Se não fosse a linda, negra, negríssima, retinta e o namorado norueguês com cara de dinamarquês de tão branco.

Ela, advogada .  Ele tentando se "segurar" no Brasil através de traduções já que fala muitíssimo bem nosso idioma.

E sabem porque soube disto?  Porque perguntei a eles se poderia fotografar aquele casal tão lindo.

Pra que?!  Foi uma confusão dos diabos.  Eles até aceitaram, mas então a praia toda se acercou.  Se é negra, é linda, tá com um brancão, não está com jeito de "mulher de arrumação", então é modelo ou artista!

Quem são? Me conta! Da onde são?

Como eu não quis pagar "mico", agradeci as fotos e voltei ao meu lugar.

O burburinho continuou de forma tão "gritante" que o casal foi obrigado a se retirar.

Tá certo Ali Kamel.  Se é negra, linda, advogada pode.  Se é negra, linda e pobre, sem estudo - prostituta!

novembro 09, 2011

PSICOLOGIA? EU?

Primeira sessão de análise ontem.  Não sei se Lacaniana, freudiana ou coisa que o valha, mas como tive excelente acolhida da psicóloga, continuei.

Um parentêse para explicar  o negrito acima: ODIAVA, DETESTAVA, ABOMINAVA psicólogos.  Não sei se já contei para vocês que tenho uma irmã que fez doutorado, mestrado e mais não sei o que em psicologia e eu a considero louca de pedra, sem conexão nenhuma com a realidade dos seres ditos normais.

Dito isto, continuemos: de cara avisei desta minha aversão para a psicóloga.  Tadinha da bichinha, sei que fui, se não grosseira, cruel, mas já que estávamos iniciando uma sessão de análise todas as verdades deveriam ser ditas e como eu ando de mãos dadas com a verdade até as raias da falta de cordialidade, falei.

Que coisa boa poder falar das mágoas, dos sofrimentos, dores e dissabores para quem não nos conhece e tem as ferramentas necessárias para ouvir, perguntar apenas para entender,  sem julgar e nem aconselhar de imediato!

Falei durante duas horas.  Foi fácil? Difícil prá cachorro! Como tirar do útero (que não tenho mais), um filho que não queria nascer.

E no meio do meu blá blá bla, uma das poucas frases da moça: " A mãe é o começo, o centro, o cerne de tudo"!  Pronto, estava feita a mixórdia:  eu sempre me bati contra esta máxima tida como verdade verdadeira sem discussões.  Como diz grande amiga minha:  cadelas, vacas também são mães e não carregam esta carga de responsabilidade.  Porque nós humanas temos que carregá-la? É injusto, é desumano. 

Mães devem e tem que cuidar, proteger, acolher, educar e, se souber, amar.  Pronto e só. E tendo feito direitinho seu papel, não podem, não devem e não tem que levar a culpa das merdas que suas crias saiam fazendo pelo mundo.

E aí entra, de novo, esta minha teimosa mania de querer explicações que me convençam. 

Quem criou esta convenção?  Freud - homem.

A mãe do Freud era linda, linda, tinha só vinte e um anos a mais que ele, e vinte menos que seu marido


"Vibrante, bela, narcísica, tirânica, egocêntrica,..., com humor cortante" no dizer de Ernest Jones; essa autêntica "mama ídiche" chamava seu pimpolho primogênito de "mein goldner Sigi" - meu Sigi de ouro.

Pois bem.  Como explicar que, apesar de todo carinho, atenção, amor e proteção que as mães dão aos filhos, alguns, depois de adultos viram verdadeiros "bichos"? Seres sem caráter, sem emoção, ruins até a medula?

Como explicar que crianças que crescem sem afeto materno (tendo ou não mães), tornam-se adultos de  excelente caráter?

Vou continuar com a análise, claro, até porque as questões que me levaram até lá nada tem a ver com o meu papel de mãe, mas que vai ter que me convencer desta máxima, ah!  Isto vai!